sexta-feira, 9 de abril de 2010

porque, Soledad (?)





... teve que renunciar o dia. Já nem fazia ideia se era noite ou tarde. Manhã sabia que não era, porque conseguiu pregar os olhos somente no primeiro pio reluzente do bem-te-ví. Aquilo era como sino da meia noite assoprando o sono, que estalava em gotas, conta-gotas, ocas; hipnotizanso até a próxima badalada humana. Mais uma vez, Soledad sacrificou seus sonhos. Decidiu não abrir a janela pra poder prolongar a realidade e se trancou no banheiro. Julho chegava violentamente, estava tão frio e tão cinza, que estimulava um banho demorado, que a fez até sentar-se em baixo do chuveiro; a cabeça rodava, sentiu o gelado azulejo na sua bunda que não era grande, dois azulejos bastavam pra sustentá-la. Nunca se preocupou muito com a parte traseira, tambem não era acostumada a se olhar no espelho, não se lembrava mais a quanto tempo não se olhava, e quando se olhava era só olho no olho, sempre daqueles espelhos de carregar na bolsa, apesar de não ter bolsa. Deixava sempre o pedaço do espelho sobre o caixote de madeira, poderia então lembrar que estava sempre lá, ao seu lado, do lado da cama, em cima da velha caixa, o seu reflexo, o único objeto capaz de revelar à Soledad o que ela realmente era e foi. Quase nunca recorria ao caixote, muito menos as coisas entulhadas, lembranças misturadas às cinzas de cigarros, nem sabia do espelho, nem lembrava do seu olhar. Sem querer lembrar, escutou o estômago e foi até a quitanda da esquina, precisava de vitaminas, energia se quisesse continuar. Depois da água toda, nem se enxugou direito, eram pingos e mais pingos que desenhavam aquele pedaço de pano amarelo-ovo, mais parecia toalha de mesa, dessas que se põem à mesa do café-da-manhã e ela adorava. Acreditava estar bonita. Era seu vestido mais alegre, por isso quando ele entrava nela era como se estivesse em outro mundo. Juntou moedas para o pão e pro cigarro, arrumou o salto do tamanco que tinha quebrado na semana passada. Desceu aquela porção de degraus estalando o salto no piso com força. Cada estalada lhe trazia imponência. Era tudo o que tinha e sabia disso. O concerto do sapato foi seu extinto de sobrevivência, não vaidade. 
Seu Antônio, o quitandeiro respeitava Soledad e sempre que podia lhe agradava com um pão a mais. Ela não gostava, pensava que fazia isso por pena de suas pernas secas de ave, ou por caridade, e odiava sentimentos caridosos. Eram dois, apenas dois pães que sempre levava, um pra ela outro pro seu nome; o terceiro, o brinde, a caridade era todo esfarelado e comido pelos pombos que ficavam no parapeito da janela de madeira. Comiam e cagavam. 
Atravessou a rua com a sacola, a caridade e o cigarro. Mal podia esperar pra sentir a zonzura que a fumaça trás quando está jejuando. O celofane ficou no caminho como rastro, pegada sua. Sentou no banco da praça que tinha na rua da sua casa. Cheirava xixi de velho. Um pensamento: xixi de velho barrigudo. Seu Ernesto veio como um raio em sua mente. O odor desse senhor, que foi jovem e perverso não saia de Soledad à mais de 45 anos, o sentimento asqueroso de uma tarde de estupro, querendo ele "concertar" a sexualidade de Soledad.

5 comentários:

Bosque Fractal disse...

Bonito conto...penso que todxs nós somos um pouco Soledad.

Kaos Z disse...

nossa, e essa imagem... caramba...

Ushas disse...

de volta libertando soledad

Cléo disse...

... e nao acabou a historia ...

Vanessa disse...

Muito bom!

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